Zhuāngzǐ Capítulo 9: Mǎ Tí (马蹄) — Cascos dos Cavalos

Seção: Capítulo Externo (外篇) | Título Chinês: 马蹄 (Mǎ Tí)

O segundo capítulo da trilogia primitivista desenvolve seu argumento por meio da imagem dos cavalos. Em seu estado natural, os cavalos comem capim, bebem água e expressam prazer entrelaçando seus pescoços. Quando ficam zangados, viram as costas e dão coices. Este é o alcance de seu conhecimento natural. Então aparece Bó Lè (伯乐), o lendário treinador de cavalos, e declara que sabe como manejar cavalos. Ele os marca a ferro, tosquia-os, peia-os, amarra-os em baias e os força a formar filas. Quando termina, dois ou três em cada dez morreram. Ele os deixa com fome, deixa-os com sede, fá-los correr, treina-os com freios e chicotes. Mais da metade está morta.

Este é o modelo do capítulo para o que a civilização faz à natureza humana. O oleiro molda a argila; o carpinteiro molda a madeira. Mas nem a argila nem a madeira pediram para ser moldadas. Da mesma forma, os reis-sábios que moldaram a humanidade por meio dos ritos (禮 Lǐ) e da música (樂 Yuè) não melhoraram a natureza — deformaram-na.

No tempo do líder de clã Hé Xū (赫胥), as pessoas davam nós para fazer contas, apreciavam sua comida, estavam satisfeitas com suas roupas, eram felizes em seus costumes e sentiam-se em casa em suas moradias. Povoações vizinhas podiam ver umas às outras e ouvir os galos e cães umas das outras, mas as pessoas envelheciam e morriam sem visitar umas às outras. Este era o governo perfeito. Então os sábios vieram com sua benevolência e retidão, e o mundo começou a duvidar. Vieram com seus ritos e música, e o mundo começou a se dividir.

Para o artista marcial, a parábola de Bó Lè traz uma advertência específica sobre metodologia de treinamento. O instrutor que impõe formas externas rígidas aos alunos — exigindo posições que seus corpos não conseguem sustentar naturalmente, repetindo técnicas que anulam os instintos naturais de movimento — é Bó Lè. O resultado não são praticantes habilidosos, mas praticantes lesionados. A abordagem das artes internas treina de modo diferente: descobrindo e refinando as qualidades naturais de movimento do aluno em vez de substituí-las.

Classificação Acadêmica

Primitivista (Graham) / Anarquista (Liu). Segundo texto da trilogia anticivilização (capítulos 8–10). Estende os argumentos do Capítulo 8 sobre a natureza individual a uma crítica das instituições sociais.

Passagens Principais em Chinês

马,蹄可以践霜雪,毛可以御风寒。龁草饮水,翘足而陆,此马之真性也。
Mǎ, tí kě yǐ jiàn shuāngxuě, máo kě yǐ yù fēnghán. Hé cǎo yǐn shuǐ, qiào zú ér lù, cǐ mǎ zhī zhēn xìng yě.
— Os cascos dos cavalos podem pisar geada e neve; seus pelos podem protegê-los do vento e do frio. Eles pastam e bebem, empinam-se e saltam — esta é a verdadeira natureza dos cavalos.
及至伯乐,曰:我善治马。烧之,剔之,刻之,雒之。
Jí zhì Bó Lè, yuē: wǒ shàn zhì mǎ. Shāo zhī, tī zhī, kè zhī, luò zhī.
— Então veio Bó Lè, dizendo: "Sou bom em manejar cavalos." Ele os marcou a ferro, tosquiou-os, marcou-os, peiou-os.

Parábolas e Episódios Principais

  • O cavalo natural — cascos sobre a geada, crinas ao vento, saltando livremente
  • Bó Lè, o treinador de cavalos — marca a ferro, tosquia, peia e mata dois ou três em cada dez
  • O oleiro e o carpinteiro — moldando argila e madeira que nunca pediram para ser moldadas
  • O tempo antigo de Hé Xū — pessoas satisfeitas, povoações visíveis umas às outras, mas sem visitas
  • A chegada dos sábios — a benevolência traz dúvida, os ritos trazem divisão

Termos Principais

  • Bó Lè (伯乐) — O lendário treinador de cavalos; símbolo do civilizador que destrói a natureza por meio do manejo
  • Zhēn Xìng (真性) — Verdadeira natureza, o estado original antes do treinamento ou da civilização
  • Lǐ Yuè (礼乐) — Ritos e música, os instrumentos confucianos de ordem social que o capítulo ataca