Hé Xiāngū (何仙姑) — A Mulher Imortal
Hé Xiāngū (何仙姑), cujo nome se traduz como "Mulher Imortal Hé", é a única integrante definitivamente feminina dos Oito Imortais (八仙 Bā Xiān). Camponesa da dinastia Táng que alcançou a imortalidade por meio da devoção, da prática ascética e do consumo de mica em pó, ela representa o ideal daoista de que a transcendência espiritual está ao alcance de todas as pessoas, independentemente do género ou do estatuto social. É normalmente representada carregando uma flor de lótus (莲花 Liánhuā), que simboliza pureza e despertar espiritual.
Origens
O nome de nascimento de Hé Xiāngū era Hé Qióng (何琼). Segundo o Xiān Fó Qí Zōng (仙佛奇踪, Rastros Maravilhosos de Imortais e Budas), ela era filha de Hé Tài (何泰), um homem de Zēngchéng (增城), em Guǎngzhōu, província de Guǎngdōng. Outras tradições situam a sua origem no distrito de Línglíng, Yǒngzhōu, província de Húnán.
Ao nascer, trazia uma marca distintiva: seis longos fios de cabelo no alto da cabeça — e a tradição afirma que esses foram todos os cabelos que alguma vez teve. Esta característica incomum foi interpretada como um presságio auspicioso que anunciava a sua ligação ao divino.
O Sonho e o Voto
Quando Hé Xiāngū tinha cerca de catorze ou quinze anos — a idade em que normalmente se teria casado — teve um sonho decisivo. Uma figura divina apareceu e instruiu-a a comer mica em pó (云母 Yúnmǔ), um mineral encontrado perto do riacho onde a sua família vivia. O sonho prometia que essa prática tornaria o seu corpo leve e etéreo, imune à morte.
Ao acordar, decidiu seguir exatamente as instruções. Fez um voto de celibato, renunciando totalmente ao casamento, e começou a consumir o mineral em pó. Gradualmente, passou a precisar de cada vez menos alimento, até deixar por completo de comer cereais — uma prática conhecida na tradição daoista como Bìgǔ (辟谷, abstenção de cereais), associada à purificação do corpo para o cultivo espiritual.
Como resultado, tornou-se extraordinariamente leve nos seus passos e conseguia percorrer grandes distâncias pelas montanhas numa única passada. Passava os dias a recolher ervas e frutos silvestres nas colinas, regressando a casa todas as noites para cuidar da mãe — encarnando a virtude confuciana da devoção filial ao lado da sua prática espiritual daoista.
Encontro com os Imortais
Em algumas versões da sua história, a educação daoista de Hé Xiāngū veio dos próprios imortais. Lǐ Tiěguǎi (李鐵拐) e Lán Cǎihé (藍采和) visitaram-na e, reconhecendo a sua prontidão, transmitiram-lhe os segredos do Caminho. Noutras versões, é descrita como discípula de Lǚ Dòngbīn (呂洞賓), que lhe deu um pêssego para comer durante um encontro nas montanhas — depois disso, ela nunca mais sentiu fome.
Sob a orientação deles, dominou práticas cada vez mais avançadas, incluindo a capacidade de voar. Comungava com imortais femininas nos reinos celestiais e desenvolveu poderes de profecia e presciência.
A Imperatriz e a Ascensão
A crescente reputação de Hé Xiāngū acabou por chegar à corte da imperatriz Wǔ Zétiān (武则天, r. 690–705 EC), que desejava para si os segredos da imortalidade. A imperatriz enviou emissários para levar Hé Xiāngū ao palácio numa liteira — uma liteira muito refinada, com fechaduras pesadas, para impedir que a eremita escapasse.
Quando os carregadores se aproximaram da capital, a liteira tornou-se subitamente mais leve. Ao olharem para dentro, Hé Xiāngū tinha desaparecido. Apesar de repetidas tentativas, a imperatriz nunca conseguiu capturá-la.
Segundo os relatos principais, durante a era Jǐnglóng (景龙, 707–710 EC), no reinado do imperador Zhōngzōng da dinastia Táng, Hé Xiāngū ascendeu ao céu em plena luz do dia — testemunhada por muitos. Outras fontes registam que ela apareceu novamente em 750 EC no Altar de Mágū (麻姑坛), em Guǎngzhōu, de pé entre nuvens de cinco cores.
A Profecia para Dí Qīng
Uma lenda posterior liga as origens de Hé Xiāngū na dinastia Táng à história da dinastia Sòng. Segundo a Dúxíng Magazine (独醒杂志), do erudito Sòng Zēng Mínxìng (曾敏行), o comandante militar Dí Qīng (狄青) passou por Yǒngzhōu durante a campanha contra o rebelde do sul Nóng Zhìgāo. Ao ouvir falar das capacidades proféticas de Hé Xiāngū, procurou o seu conselho.
Ela disse-lhe: "General, nem sequer precisa de enfrentar o inimigo. Antes de o senhor chegar, eles já terão sido derrotados e fugido." Dí Qīng não acreditou inicialmente nesta previsão favorável. Mas, de facto, após apenas alguns confrontos, Nóng Zhìgāo foi derrotado e fugiu para o Reino de Dàlǐ. A sua profecia revelou-se exata.
Iconografia
Hé Xiāngū é representada como uma jovem mulher bela e graciosa, com vestes fluidas. É facilmente identificada como a única figura feminina entre os Oito Imortais. O seu principal emblema é a flor de lótus (莲花 Liánhuā), que simboliza a pureza que emerge da água lamacenta — uma imagem de influência budista que reflete o despertar espiritual não contaminado pela corrupção mundana. O lótus também está associado à saúde e à clareza mental.
Por vezes, é mostrada carregando uma concha de bambu ou um Shēng (笙, um órgão de boca chinês de palhetas), ou acompanhada por um Fènghuáng (凤凰, fénix). Nas representações dos Oito Imortais Atravessando o Mar, ela atravessa a água sobre a sua folha de lótus ou uma cobertura de bambu.
O seu recipiente mágico é o próprio lótus, que se diz melhorar tanto o bem-estar físico como o mental.
Significado
A presença de Hé Xiāngū entre os Oito Imortais é teológica e culturalmente significativa. Entende-se que os Oito Imortais representam todo o espectro da experiência humana — velhos e jovens, homens e mulheres, ricos e pobres, nobres e humildes. Como única mulher, Hé Xiāngū afirma o ensinamento daoista de que o caminho para a imortalidade não é restringido pelo género.
A sua história também influenciou a prática institucional daoista posterior. A escola Quánzhēn (全真), à qual vários dos Oito Imortais estão associados, manteve uma tradição de acolher praticantes mulheres. A ênfase da escola no cultivo interior em vez do ritual externo criou espaço para o avanço espiritual das mulheres, e Hé Xiāngū tornou-se um modelo exemplar para daoistas femininas em busca da transcendência.
A sua recusa do casamento, o seu desafio às convocações imperiais e a sua ascensão final nos seus próprios termos fazem dela uma figura de independência espiritual — alcançando a imortalidade por meio da devoção pessoal, e não através do patrocínio de qualquer mestre, imperador ou instituição.